Chrissy Steltz, usando sua prótese facial. Ela sofreu um acidente com arma de fogo e perdeu parte do rosto.

Este artigo foi preparado pelo Dr. James D. Anderson, BSc, DDS, MScD e Todd M. Kubon, BA, MAMS, para o Jornal da AboutFace International, no verão de 2001.

* Os Primeiros dias

Quando alguém adquire uma diferença facial , isto geralmente se dá de forma súbita e inesperada. Uma série d rápidos eventos se segue, o que provavelmente incluirá muitas consultas médicas e cirurgias. Decisões deverão ser  tomadas rapidamente e compromissos marcados com pouco tempo para a reflexão. Este será um período de mudança de vida repleto de grande ansiedade.

Todavia, pessoas que recebem o apoio adequado de organizações como a AboutFace podem ter minimizada a sensação de terem sido arrebatadas por esses eventos.

Os indivíduos podem adaptar-se e, geralmente, o fazem em ritmos diferentes. A capacidade de adaptação das pessoas que têm que lidar com uma diferença facial, recentemente adquirida, tem sido notável. Essa adaptação é caracterizada por muitas das etapas citadas a seguir.

O primeiro tipo de desafio a ser enfrentado por pacientes que adquiriram uma diferença facial relaciona-se à causa da perda. Se ela se deu por meio de um evento particularmente traumático, provavelmente também ocorrerão sintomas de ansiedade pós-traumática, como distúrbios do sono e pesadelos. Se uma doença muito temida, como o câncer causou perda, haverá uma persistente preocupação com relação à reincidência. Em qualquer caso o paciente irá deparar-se com a necessidade de aceitação da perda e da retomada de uma vida normal.

* Perda

Uma pessoa com uma diferença facial adquirida tem questões muito mais específicas para lidar do que aquelas que possuem uma diferencia congênita.

Adquirir uma diferença requer a aceitação de uma perda. A perda é um estado de encontrar-se sem algo que se tinha e se valorizava (Peretz, 1970). A perda pode ser uma experiência muito traumática e dolorosa que com freqüência pode desencadear uma série de emoções semelhantes às experimentadas no sofrido processo da perda de um ente querido. É normal que uma pessoa que esteja sofrendo, atravesse estágios de negação, raiva, negociação, depressão e aceitação. As etapas desse processo podem preceder ou surgirem após a reação cirúrgico-prostética. Dependendo do momento em que o indivíduo encontra-se no processo de reabilitação, esses estágios de sofrimento podem afetar a capacidade deste indivíduo em enfrentar ou aceitar os resultados do processo de reabilitação.

* Negação

A negação é com freqüência o primeiro estágio do processo de sofrimento. Um indivíduo costuma usar a negação como um mecanismo inconsciente de defesa para não ter que lidar com a dor de sua perda. Contudo, recusar-se a reconhecer as condições dolorosas, os pensamentos, ou os sentimentos pode ser prejudicial ao bem estar psicológico dessa pessoa.

Há sentimentos acerca de mudanças na identidade e em como esse indivíduo irá relacionar-se com a família e os amigos no futuro e, por sua vez, de como eles irão se relacionar com ele.

A diferença facial tem o poder de afetar o convívio social dessa pessoa. Não é surpreendente que esta seja a base da ansiedade relacionada a futuros relacionamentos.

* Raiva

A raiva é o segundo estágio do processo de sofrimento. A raiva é uma forte emoção de  descontentamento com o que nós consideramos como injusto em relação a nós mesmos.

No que diz respeito a adquirir uma diferença facial, a raiva é freqüentemente direcionada à família e aos cuidadores que tentam ajudar. Entender que essa expressão de raiva é parte de uma tentativa das pessoas afetadas processarem as novas circunstâncias é muito importante. Este conhecimento pode auxiliar a prevenir situações problemáticas ao longo do processo de cuidado.

A raiva também afeta a percepção dos indivíduos. Uma postura agressiva terá um impacto negativo sobre os resultados do tratamento. Os mecanismos de enfrentamento incluem o desenvolvimento de uma “atitude” consciente com relação ao problema. Isso consome considerável energia; por isso mecanismos de apoio são importantes para a pessoa com diferença. Além disso, a capacidade anterior de adaptação do indivíduo poderá ajudar no ajustamento à nova situação.

* Negociação

Neste estágio, o indivíduo parece aceitar a inevitabilidade da perda, mas ainda procura por meios para diminuir o impacto dela. Sendo assim, a pessoa tenta encontrar formas para escapar da realidade, mesmo por um curto espaço de tempo, adiando a perspectiva de ter que trabalhar para enfrentar sua perda. Por exemplo, as pessoas podem optar por deixar o tratamento definitivo de reabilitação para depois, através de argumentos que parecem pobres em consistência. Sob tais circunstâncias, essa escolha é inteiramente compreensível. Apenas porque mais tempo é necessário para a adaptação.

* Depressão

Enfrentar a realidade da perda a longo prazo é um desafio que parece ser insuperável em muitos momentos. Portanto não é surpreendente que o indivíduo afetado se torne depressivo. A depressão pode ser caracterizada pela incapacidade de concentração, insônia e sentimentos de intensa tristeza, abatimento e falta de esperança. Isto pode durar um certo tempo ou persistir por meses.

Alguém que adquire uma diferença facial pode sentir-se desesperançoso com relação  ao futuro e impotente diante da realidade. Porém não há necessidade que estes sentimentos durem indefinidamente. O tempo e o apoio podem ajudar a dar um fim à essa perda.

* Aceitação e apoio

A aceitação é uma atitude mental que permite a um indivíduo dar fim ao processo de dor pela sua perda. A aceitação perda é um importante passo final para alguém com uma diferença facial continuar a desempenhar efetivamente e de forma alegre seu papel  nas situações cotidianas.

A diferença facial é um desafio que deve ser encarado como qualquer outro desafio da vida. Uma aproximação positiva maior com a família, os amigos e o trabalho tornando-se conseqüências naturais, e o indivíduo passa a desejar levar a vida adiante, deixando os eventos desagradáveis para trás.

Nesta etapa as pessoas afetadas ficam muito mais receptivas ao resultado do tratamento  e com uma maior  capacidade se adaptarem à quaisquer mudanças na rotina exigidas pelas novas circunstâncias.

* Conclusão

Com freqüência, as pessoas são notavelmente capazes de se adaptarem bem ao tratamento relacionado às diferenças faciais. Sabendo-se queessa capacidade de adaptação não está apenas associada ao tratamento prostético e cirúrgico, o tratamento emocional é igualmente importante e comumente necessita de tanto cuidado intensivo quanto o aspecto cirúrgico. Esta abordagem pode ser realizada  por um grupo crânio-facial multidisciplinar bem integrado como têm demonstrado os resultados bastante favoráveis.

Texto traduzido por: Daniela Farinha Sabariz Freitas Monteiro